Lula, antes de Palocci delatá-lo: “Pode contar tudo o que ele souber”

Em 20 de abril de 2017, Antonio Palocci disse a Sérgio Moro que podia revelar “nomes e operações” para mais um ano de Lava Jato. O recado foi entendido: o ex-ministro dos governos Lula e Dilma estava disposto a delatar o que sabia para a operação.

Na semana seguinte, no entanto, Lula utilizou-se das redes sociais para vender à opinião pública que não tinha o que temer: “não tenho nenhuma preocupação com delação dele. Palocci é meu companheiro há 30 anos, é um dos homens mais inteligentes desse país“.

Num tom quase desafiador, o ex-presidente disse que, ainda que contasse tudo o que soubesse, Palocci não o atingiria com nada.

No 6 de setembro de 2017, Palocci conversou novamente com Moro, desta vez na condição de delator. E não só confirmou suspeitas que a operação tinha contra Lula, como acrescentou que o petista havia endossado R$ 300 milhões em propina da Odebrecht para o PT.

Coube então à defesa de Lula emitir nota desqualificando o depoimento. Mas o estrago já estava feito.

Os erros de Janot não são erros da Lava Jato, são erros da PGR

A Lava Jato ganhou os jornais em 17 de março de 2014. Só no mês seguinte, uma força-tarefa composta por quinze procuradores da República foi designada para atuar na primeira instância da Justiça Federal do Paraná. Esta equipe responsabilizou-se pelo trabalho levado em consideração por parte dos eleitores ao, já na semana seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, ir às ruas pedir o impeachment da petista.

O termo parece um capricho, mas não é. Apenas em janeiro de 2015 foi formado em Brasília um “grupo de trabalho” na Procuradoria-Geral da República. Tinha por objetivo analisar o material que chegava de Curitiba. O motivo era simples: alguns investigados gozavam de foro privilegiado e, por força de lei, Sérgio Moro remetia à capital federal o que tinha em mãos. Mas, não fosse pelo ótimo trabalho da trupe de Deltan Dallagnol, este segundo time nem existiria.

Perto do primeiro aniversário, a marca “Lava Jato” já gozava de certo prestígio junto à opinião pública. Mas muita confusão nascia das ações da Polícia Federal. O noticiário se acostumou a misturar as fases da operação com os desdobramentos. E, de repente, soava vantajoso a qualquer investigador ser associado ao trabalho curitibano.

Com a PF descobrindo áudios ocultos no gravador de Joesley Batista, a polêmica delação da JBS ajudou a queimar o filme de Rodrigo Janot e, principalmente, Marcelo Miller, ex-braço direito do procurador-geral.

Miller chegou a integrar o “grupo de trabalho” da PGR em Brasília, aquele que só nasceu porque a lei brasileira protege alguns privilegiados. Mas o abandonaria para se converter em defensor do grupo J&F, uma jogada para lá de criticada na cobertura jornalística.

Empolgadas com o fracasso da investida de Janot contra Michel Temer, vozes governistas se deram a gritar que a crise acabava com a Lava Jato. Sabem que uma coisa não tem tanto a ver com a outra. Mas torcem para que a opinião pública acredite no contrário. Só assim, conseguiriam salvar dúzias de corruptos que ainda driblam a Justiça com os cargos conquistados nas últimas eleições.

Isso, claro, não pode acontecer. O eleitor precisa entender que o trabalho feito em Curitiba é técnico. Quanto ao de Brasília, até mesmo pela lógica do sistema – o comando é escolhido pelo presidente da República, esteja ele sendo ou não investigado –, é político. E o Brasil tem visto o mal que a política é capaz de fazer.

Gilmar Mendes: “O Brasil sobreviveu a um desastrado na PGR”

Mesmo em Paris, Gilmar Mendes falou a O Globo. Por telefone, como tem sido habitual, não poupou adjetivos a Rodrigo Janot. Mas, desta vez, num tom ainda mais enfático. E com alguma razão, coisa que vinha rareando em manifestações anteriores:

“Eles tentaram arrastar o STF para a lama em que eles se meteram. Essa atitude tem que ser repudiada. Ele armou isso para atingir o STF. Esse processo todo é desastroso, um fracasso. A PGR terá que ser reconstruída e essa será a tarefa da procuradora Raquel Dodge. A PGR virou, com Janot, uma mula sem cabeça. Mas a institucionalidade no Brasil é muito forte. O Brasil sobreviveu a um desastrado na PGR. Temos que ter fé no nosso destino. O que ele tentou fazer no episódio revela sua total falta de escrúpulo.”

Claro que é preciso fazer ressalvas ao pronunciamento. Mendes mesmo tem sido constantemente acusado de atuar contra a reputação do Supremo. Mas a desconfiança da opinião pública confirmou-se na indiscrição de Joesley: em vários momentos, o delator deixa a entender que a PGR tinha por objetivo “dissolver” o Supremo por intermédio de ministros amigos. Tudo com uma incômoda aproximação de José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça, mais famoso por ter atuado como advogado de Dilma Rousseff na fase final do impeachment.

Seguidamente, a população negou convites para ir às ruas pedir o fim do governo Temer. Nas redes sociais, vozes temiam que tudo não passasse de um plano para a volta do PT ao poder. No papo com Ricardo Saud, Joesley joga ainda mais lenha na fogueira: o futuro  do Brasil estaria reservado a Janot.

Mas faltou combinar com os russos. Ou com a própria habilidade para manipular um gravador.

Cármen: “Agride-se de maneira inédita a dignidade deste tribunal”

Cármen Lúcia preferiu não esperar. E, de uma forma pouco comum, soltou nas redes sociais um breve pronunciamento em que, de maneira direta, exige que tudo e todos sejam investigados. Para tanto, alegou que “agride-se de maneira inédita na história do país a dignidade institucional deste supremo tribunal e a honorabilidade de seus integrantes“.

Aparentemente, a dupla Joesley Batista e Ricardo Saud encontrou a linha vermelha que não pode ser cruzada no STF. Há anos a casa vem sendo desmoralizada pela postura de seus integrantes. Mas detalhes da intimidade dos ministros sempre eram preservados – uma prática ainda comum em Brasília.

Até o momento, muito por causa das redes sociais, Lúcia tem sido a mais atingida pela vazamento. Na conversa gravada pelos executivos do grupo J&F, a proximidade que ela teria com Dilma Rousseff e José Eduardo Cardozo é narrada com detalhes picantes, ainda que pouco críveis.

Mais do que a honra do Supremo, a honra de sua presidente foi abalada. Ela tinha que reagir. Mas até que demorou.

Joesley e Saud negaram

Sem muitas surpresas, Joesley Batista e Ricardo Saud emitiram uma nota negando as afirmações que fizeram em privado no tal áudio recuperado pela PF.

“A todos que tomaram conhecimento da nossa conversa, por meio de áudio por nós entregue à PGR, em cumprimento ao nosso acordo de colaboração, esclarecemos que as referências feitas por nós ao Excelentíssimo Senhor Procurador-Geral da República e aos Excelentíssimos Senhores e Senhoras Ministros do Supremo Tribunal Federal não guardam nenhuma conexão com a verdade. Não temos conhecimento de nenhum ato ilícito cometido por nenhuma dessas autoridades. O que nós falamos não é verdade, pedimos as mais sinceras desculpas por este ato desrespeitoso e vergonhoso e reiteramos o nosso mais profundo respeito aos Ministros e Ministras do Supremo Tribunal Federal, ao Procurador-Geral da República e a todos os membros do Ministério Público.”

É o mínimo que poderiam – ou até deveriam – fazer. Mas nada leva a crer que a anistia negociada com Rodrigo Janot siga de pé. Afinal, a opinião pública nunca engoliu bem a história de os envolvidos nem sequer terem usado tornozeleira eletrônica em casa. E viu no áudio vazado a prova do que vinha apontando desde o início.