Não há negação da política, há negação dos políticos sujos

Ao pé da letra, “política” seria nada mais do que “coisas do Estado”. Há definições mais poéticas, como que a tem por “arte da conveniência”. Na prática, contudo, pode ser resumida como uma forma civilizada de se resolver conflitos.

Negar a política, portanto, seria negar tal método, abandonar o jogo e, já sem debates, já sem compostura, solucionar as rusgas de forma truculenta, à moda antiga, com as próprias mãos.

Por instinto de sobrevivência, políticos são mestres no saque do argumento. Desta forma, qualquer sede por renovação é entendida por negação da política e uma defesa de toda a barbárie que a acompanha.

Mas quem de fato nega a política? Quem perdeu a paciência? Ou quem rasga provas, protege privilegiados, concede liberdade a criminosos e ignora até mesmo os trechos mais claros da Constituição?

Ainda que supostamente ambos estejam errado, fato é que o primeiro apenas reage aos abusos do segundo, que já não se importa com os anseios da opinião pública. Quando a opinião pública não é considerada, não há representatividade, não há democracia, e a Constituição não passa de palavras escritas no papel.

Mais do que negação da política, há a negação dos políticos. Políticos corruptos. Políticos incompetentes. Políticos que vivem a cavar a própria cova.

Porque respeito não é algo que se pede, é algo que se conquista. E a classe política brasileira já não o tem há tempos.

A corrupção não é “do jogo”, a corrupção é o modelo de negócios das organizações criminosas

“É do jogo.” A expressão não era inédita, mas ganhou ares de discurso oficial quando o governismo passou a sacá-la sempre que os governos Lula e Dilma Rousseff tomavam decisões que contrariavam o próprio discurso. Em especial, quando o ex-presidente selou apoio com o PMDB para garantir a própria reeleição.

Sempre com ar de superioridade, os mais versados costumavam tratar a corrupção como regra não declarada do tal jogo. E tomavam os indignados por ingênuos, filhos incapazes de compreender as duras decisões dos pais.

Com o sucesso de tantas operações, em especial a Lava Jato, tudo se fez mais claro. A corrupção não era regra do jogo, era o modelo de negócio. Sem ela, a vida pública não fazia sentido para quem delas se apoderava. Não estava em pauta o interesse da população, mas quanto aquelas organizações criminosas conseguiam roubar do povo brasileiro.

A situação tem mudado nos últimos anos. Mas num movimento tímido para o tamanho da podridão. E sob o constante risco de tudo voltar a ser como antes – ou ainda pior.

Resta saber se o povo brasileiro terá condições para vencer esta batalha nas eleições de 2018. Ou se mais uma vez será ludibriado pelo mesmo e danoso governismo de sempre.

Odiada pela esquerda, a delação premiada só foi possível graças aos protestos esquerdistas de junho de 2013

A PEC 37 pretendia tirar do Ministério Público o poder de conduzir inquéritos, reservando à instituição apenas a possibilidade de apresentar ações na Justiça ou arquivar investigações. Na época, o Congresso era comandado por Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros, uma dupla peemedebista que aprovava qualquer pauta de interesse do governo Dilma. Mas os envolvidos não imaginavam, contudo, que um protesto esquerdista em São Paulo sairia do controle, obrigando-os a rever a pauta naquele junho de 2013.

O Movimento Passe Livre alegava querer transporte público gratuito para a população. Mas tempo comprovaria que tudo não passava de uma provocação à Polícia Militar. No que o revide viesse – e veio –, a pressão seria jogada no governo de São Paulo, que completava a segunda década sob os cuidados do PSDB. Contudo, a narrativa escapuliu pelas mãos. E logo trocentos cartazes surgiram nas ruas jurando que toda aquela destruição não era pelo aumento de 20 centavos nas tarifas de transporte público.

Ok. Então era sobre o quê?

Buscando um objetivo mais nobre, a própria imprensa alimentou a ideia de que gritavam contra a corrupção. Foi quando a PEC 37 entrou no pacote de medidas batizado de “pauta positiva”. E caiu.

Enquanto isso, outras ideias subiram. Em agosto, Dilma Rousseff sancionou a lei 12.850. Que, na prática, consolidava o instituto da delação premiada no Brasil.

Quatro anos depois, encabeçada pelo Ministério Público, as delações premiadas fizeram com que um total de 1.213 suspeitos fossem denunciados, ou mesmo presos. E R$ 14,1 bilhões, devolvidos ao povo brasileiro.

Quanto à esquerda, grita como pode contra a lei 12.850. Em alguns casos, critica frontalmente a postura do Ministério Público diante da corrupção. Mas nada disso seria possível sem aquela ação destrambelhada em 2013.