Dois anos após dizer que não confia em delator, Dilma prometeu usar uma delação para anular impeachment

Em delação premiada assinada com o STF, Lúcio Funaro afirmou que, dias antes de o impeachment de Dilma Rousseff ser votado, Eduardo Cunha entrou em contato para saber se o doleiro tinha algum recurso para “comprar votos” a favor do processo. Em entrevista à revista Época, Cunha já comentou o episódio:

Janot queria que eu colocasse na proposta de delação que houve pagamentos para deputados votarem a favor do impeachment. Isso nunca aconteceu. Um absurdo. Se o próprio Joesley confessou o contrário na delação dele, dizendo que se comprometeu a pagar deputados para votar contra o impeachment, de onde sai esse tipo de coisa? Qual o sentido? Mas aí essa história maluca, olha que surpresa, aparece na delação do Lúcio (Funaro, doleiro próximo a Cunha). É uma operação política, não jurídica.”

Nenhum dos três – Cunha, Funaro e Rodrigo Janot – fez por merecer a confiança da opinião pública. Mas Dilma Rousseff achou por bem confiar nos dois últimos. E promete usar a delação do doleiro para anular o processo de impeachment que a derrubou.

O cruzamento de notícias levar a crer que a presidente cassada assim age por pura conveniência política. Afinal, dois anos antes, a ainda presidente da República surgia em manchete deixando bem claro: “Não respeito delator“. No caso, por ter sido alvo de vários, que entregavam os podres de seu governo já moribundo.

Mas as chances dessa investida contra o processo de impeachment tendem a zero. Quanto a isso, o brasileiro pode ficar tranquilo.

Odiada pela esquerda, a delação premiada só foi possível graças aos protestos esquerdistas de junho de 2013

A PEC 37 pretendia tirar do Ministério Público o poder de conduzir inquéritos, reservando à instituição apenas a possibilidade de apresentar ações na Justiça ou arquivar investigações. Na época, o Congresso era comandado por Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros, uma dupla peemedebista que aprovava qualquer pauta de interesse do governo Dilma. Mas os envolvidos não imaginavam, contudo, que um protesto esquerdista em São Paulo sairia do controle, obrigando-os a rever a pauta naquele junho de 2013.

O Movimento Passe Livre alegava querer transporte público gratuito para a população. Mas tempo comprovaria que tudo não passava de uma provocação à Polícia Militar. No que o revide viesse – e veio –, a pressão seria jogada no governo de São Paulo, que completava a segunda década sob os cuidados do PSDB. Contudo, a narrativa escapuliu pelas mãos. E logo trocentos cartazes surgiram nas ruas jurando que toda aquela destruição não era pelo aumento de 20 centavos nas tarifas de transporte público.

Ok. Então era sobre o quê?

Buscando um objetivo mais nobre, a própria imprensa alimentou a ideia de que gritavam contra a corrupção. Foi quando a PEC 37 entrou no pacote de medidas batizado de “pauta positiva”. E caiu.

Enquanto isso, outras ideias subiram. Em agosto, Dilma Rousseff sancionou a lei 12.850. Que, na prática, consolidava o instituto da delação premiada no Brasil.

Quatro anos depois, encabeçada pelo Ministério Público, as delações premiadas fizeram com que um total de 1.213 suspeitos fossem denunciados, ou mesmo presos. E R$ 14,1 bilhões, devolvidos ao povo brasileiro.

Quanto à esquerda, grita como pode contra a lei 12.850. Em alguns casos, critica frontalmente a postura do Ministério Público diante da corrupção. Mas nada disso seria possível sem aquela ação destrambelhada em 2013.

Em média, cada delação premiada recupera R$ 49 milhões roubados do povo brasileiro

A lei 12.850 foi assinada em 2 de agosto de 2013. Integrava uma “pauta positiva” trabalhada em Brasília como resposta às manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho daquele ano. Quatro anos depois, de acordo com levantamento da Época, 285 acordos de colaboração foram firmados em todo o país, com a maior parte (194) acordada com o Ministério Público Federal. E os resultados são impressionantes.

Um total de 1.213 suspeitos foram denunciados, ou mesmo presos. Isso tornou possível aos investigadores efetuarem o resgate de R$ 14,1 bilhões, um valor superior ao PIB de um quarto das nações do mundo. Na média, cada delação retorna R$ 49 milhões aos cofres públicos. É muita coisa.

As trapalhadas de Rodrigo Janot na PGR abalaram a imagem do dispositivo. Mas resta nítido que ele é extremamente benéfico a um país tão vitimado pela corrupção.