A Lava Jato apura se governos Lula e Dilma venderam 29 medidas provisórias por R$ 625 milhões em propina

O Estadão descobriu que ao menos 29 medidas provisórias foram, por assim dizer, infectadas pela ação dos investigados na operação Lava Jato e seus desdobramentos. Ao todo, as bases dos governos Dilma Rousseff e Lula teriam recebido R$ 625,1 milhões em propina para a aprovação dos referidos textos.

Num número ainda não fechado, sabe-se que toda a movimentação sob suspeita resultou em renúncia fiscal de ao menos R$ 165 bilhões. Só com essa quantia, seria possível cobrir o rombo do orçamento de 2017, calculado em R$ 159 bilhões, e ainda sobrariam R$ 6 bilhões, algo suficiente para manter o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações funcionando por um ano.

O jornal ainda acrescenta que, no alvo das investigações, estão três projetos de lei e dois decretos presidenciais, um deles de Michel Temer. E destaca que o volume de renúncias não necessariamente impactou negativamente o país.

Esquece, contudo, que carece de legitimidade, uma vez que teriam deixado de lado os interesses da nação para se alinharem aos de lobistas corruptos.

Antonio Palocci confirmou à Lava Jato que Lula virou ministro para evitar ser preso

A ideia de Lula virar ministro de Dilma Rousseff para evitar ser preso já era discutida nas redes sociais pelos militantes mais fervorosos em meados de 2015. Mas ganhou corpo no início de 2016, quando a Lava Jato conduziu coercitivamente o ex-presidente. Dias depois, a presidente da República fez do próprio padrinho o seu ministro da Casa Civil, cargo que ocuparia por pouquíssimo tempo, uma vez que Gilmar Mendes suspenderia a nomeação após grampos vazados mostrarem a dupla atuando contra uma eventual prisão.

Em delação premiada para a mesma Lava Jato da qual Lula supostamente fugia, Antonio Palocci garantiu que não havia nada de “supostamente”. Segundo o ex-ministro das gestões petistas, o ex-presidente havia sido informado de que seria preso. E que, numa evidente obstrução de Justiça, seria nomeado por Dilma para evitar o encarceramento.

Consultado numa reunião sigilosa, Palocci sugeriu a Lula não aceitar o convite e iniciar uma luta política de dentro da cadeia. Mas este evitou o caminho seguido por tantos aliados que se negaram a delatar o que sabiam dos crimes pelos quais foram condenados.

Não daria certo. Dois meses depois, Dilma seria afastada do cargo. No ano seguinte, Lula se tornaria o primeiro ex-presidente do Brasil condenado em primeira instância.

Segundo Palocci, Lula e Dilma Rousseff acompanharam toda a operação para melar a Castelo de Areia

Deltan Dallagnol costuma declarar em entrevistas que a Lava Jato poderia ter começado ainda no governo Lula. No caso, o procurador faz referência à Castelo de Areia, investigação que mirava supostos crimes financeiros e lavagem de dinheiro cometidos pela Camargo Corrêa. Deflagrada em 2009, a operação teria vida curta por obra da 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, que a enterrou em 2011.

De acordo com a apuração do Antagonista, a própria Lava Jato pode reverter essa situação. Em delação premiada, o ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff entregou que a ordem para melar a investigação teria partido da presidente cassada quando ainda era ministra da Casa Civil. A petista teria segurado a investigação dentro da PF enquanto o STJ punha fim aos dois anos de trabalho.

Conforme publicado na Folha de S.Paulo, a Camargo Corrêa teria pago R$ 5 milhões ao então presidente do STJ, César Asfor Rocha, com o objetivo de anular a operação. Quanto ao PT, segundo a Veja, teria recebido R$ 50 milhões do grupo para a campanha de 2010. Ainda de acordo com a delação de Palocci, Dilma e Lula acompanharam toda a operação para melar a investigação.

É grave. É gravíssimo.

O total de membros do STF supostamente na mão de Cardozo coincide com o que Dilma Rousseff teria oferecido a Cunha

Em dado momento do longo grampo gravado por acidente, Joesley Batista e Ricardo Saud conversaram a respeito de uma alegação feita por José Eduardo Cardozo. De acordo os delatores, o ex-ministro da Justiça do governo Dilma teria garantido à JBS possuir “cinco ministros do Supremo na mão“. Apesar de confuso, o trecho em questão deixa claro que um deles poderia ser Ricardo Lewandowski, o primeiro nomeado por Lula após o estouro do Mensalão. Há ainda uma história indecorosa a respeito de Cármen Lúcia, na qual Cardozo tentara provar a influência que tinha sobre ela.

O cara falou que tem cinco, cinco ministros do Supremo na mão dele. Inclusive muitos conversado e outros não, é só palavreado, não escrito, tal. Ele falou ‘cinco ele não tem não… Ele tem… Ah, só se eles, só se eles contam Lewandowski até hoje‘. Ele falou, falei: ‘ah, daí eu não sei, não deu nome não… Mas se contar Lewandowski, pode ser sim…’”

Independente de Cardozo falar a verdade ou não, o número coincide com a revelação feita por Eduardo Cunha antes mesmo de ser preso pela Lava Jato. De acordo com o peemedebista, em um encontro ocorrido no 1º de setembro de 2015, Dilma Rousseff em pessoa teria oferecido a ele a “ajuda” de “cinco ministros do Supremo:

A presidente, no dia em que eu estive com ela, em 1º de setembro, fui para uma audiência que ela convocou para falar de medidas e sei lá o quê. Ela disse que tinha cinco ministros do Supremo para poder me ajudar. Ela não disse os nomes nem ajudar no quê. Eu simplesmente ignorei. Teve uma outra oportunidade em que o governador Pezão, numa segunda-feira que eu estava aqui em Brasília, agosto ou setembro, simplesmente me telefonou porque precisava falar comigo urgente. Ele disse: ‘eu estava querendo ir almoçar com o Michel no Jaburu’. Eu disse: ‘Pezão, quer me encontrar lá?’. E ele foi. Chegando lá, pedi licença ao Michel eu fui para uma sala sozinho com ele, que veio com a mesma história de que ela tinha cinco ministros do Supremo para me ajudar.”

Em episódio semelhante, mas com grampo já conhecido, Delcídio do Amaral ofereceu a Bernardo Cerveró a ajuda de dois ministro dos Supremo, Teori Zavascki e Dias Toffoli, além da promessa de que conversaria com um terceiro, Gilmar Mendes. Pela declaração, o ainda senador seria preso com velocidade superior à da prisão dos executivos da JBS.

Meses depois, já próximo de se livrar da cadeia, Delcídio garantiria que tudo não passara de bravata. Quanto aos membros da JBS, preferiram manter o silêncio a respeito – ao menos num primeiro momento.

Segundo Palocci, na véspera da posse dela, Lula deu ordens para Dilma manter o esquema sujo com a Odebrecht

O depoimento de Antonio Palocci foi tão avassalador que merece ser revisitado sempre. Quando esteve frente a frente com Sérgio Moro, o ex-ministro do PT entregou que, em 30 de dezembro de 2010, apenas dois dias antes de Dilma Rousseff assumir a Presidência do Brasil, Lula deu ordens para que a sucessora mantivesse com a Odebrecht todo o relacionamento criminoso que já vinha em curso em sua gestão:

“Dias depois, o doutor Emílio volta ao presidente Lula, numa reunião em 30 de dezembro de 2010. Nessa reunião, o presidente Lula leva a presidente Dilma, presidente eleita, pra que ele diga a ela das relações que ele tinha com a Odebrecht e que ele queria que ela preservasse o conjunto daquelas relações em todos os seus aspectos, lícitos e ilícitos.”

A reunião foi relatada a Palocci pelo próprio Lula, que confirmou a reserva de R$ 300 milhões para uso do PT por parte da empreiteira. Com o adendo de que poderia ser ainda mais, caso fosse necessário.

Conforme explicado por Palocci, a Odebrecht temia ser escanteada na gestão Dilma. E ofereceu todo um pacote de “ilicitudes” a Lula como forma de obter dele a garantia de que a relação com o Governo Federal não seria abalada. Além dos R$ 300 milhões, os “afagos” incluíam um prédio para o Instituto Lula e a reforma no sítio em Atibaia, ambos sob investigação da Lava Jato.

E o plano teria funcionado tão bem que resultou na referida reunião.

Dilma Rousseff foi denunciada por propinas que somaram R$ 170,4 milhões

Na denúncia oferecida por Rodrigo Janot em seus últimos dias como procurador-geral da República, Dilma Rousseff aparece como a principal beneficiada por uma lista de esquemas sujos que resultaram em R$ 170,4 milhões em propina. Os números foram descobertos por intermédio das delações premiadas da Odebrecht, da JBS, dos ex-executivos da Petrobras (Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Pedro Barusco) e pelos próprios marqueteiros das campanhas da petista (Mônica Moura e João Santana).

Foram:

  • R$ 47 milhões pagos pela Odebrecht ao marqueteiro em 2010 e 2014
  • R$ 30 milhões repassados pela Odebrecht a Antonio Palocci
  • R$ 69,4 milhões repassados pela Odebrecht na campanha de 2014
  • R$ 24 milhões para a compra do apoio dos partidos políticos em 2014

Rodrigo Janot assim fechou a fatura:

“Somados os referidos valores, verifica-se que Dilma Rousseff foi favorecida, em 2010, com a quantia de R$ 56 milhões, com débitos da Planilha ‘Italiano’, e, em 2014, de R$ 114,4 milhões, com descontos da Planilha ‘Pós-Itália’”

Mas, para o procurador, o trabalho sujo teria começado muito antes de a petista se tornar presidente. Mas especificamente, quando o PT chegou à Presidência da República.

“Desde ali contribuiu decisivamente para que os interesses privados negociados em troca de propina pudessem ser atendidos, especialmente no âmbito da Petrobras, da qual foi Presidente do Conselho de Administração entre 2003 e 2010.”

É importante observar ainda que, de uma eleição para outra, os valores que teriam beneficiado a petista mais que dobraram.

Palocci confessou que tentava, ao lado de Lula, sabotar a Lava Jato

No já histórico depoimento dado por Antonio Palocci a Sérgio Moro, o ex-ministro dos governos Lula e Dilma entregou muito mais do que se esperava. Além dos R$ 300 milhões avalizados pelo próprio ex-presidente ao PT, o “Italiano” confessou que foi comparsa do presidenciável em algumas tentativas de barrar o avanço da operação Lava Jato.

“Em algumas oportunidades, eu me reuni com o ex-presidente Lula e com outras pessoas no sentido de buscar, vamos dizer, criar obstáculos à evolução da Lava Jato.”

Palocci se dispôs a, inclusive, revelar detalhes no referido depoimento. Mas Sérgio Moro achou melhor deixar o detalhamento para um processo específico sobre o tema – na mesma semana, a PGR denunciou Lula e Dilma Rousseff por obstrução de Justiça à Lava Jato quando da nomeação desse a ministro da Casa Civil.