Lula e a esquerda brasileira apoiam um ditador acusado de matar 8.290 venezuelanos

10.09.2015 - Lula participa da abertura do 3º Congresso Internacional de Responsabilidade Social, na Argentina

Mesmo com tudo o que se sabe de Nicolás Maduro, a esquerda brasileira em pesa seguiu oferecendo apoio ao ditador venezuelano. Em especial, chamou atenção as manifestações pública de partidos como PT, PCdoB, PDT e PSOL, além das palmas pedidas por Lula nas redes sociais – e uma estranha fala, quando o ex-presidente insistiu que estava ficando mais “maduro”.

Se o que o noticiário apontava já tinha força em suficiência para tornar repudiáveis o posicionamento da esquerda brasileira, o que dizer após Luisa Ortega Díaz acusar em Haia que Maduro matara 8.290 venezuelanos no intervalo de dois anos e meio?

Portanto, é preciso deixar claro para a opinião pública quem é a pessoa que, até a redação deste texto, lidera pesquisas na corrida presidencial. E esta pessoa é alguém que aplaude um ditador sanguinário – e se manifesta de forma a deixar a sensação de que está ficando como ele.

Nicolás Maduro já recebeu ao menos US$ 10 bilhões da Rússia

Meeting with President of Venezuela Nicolas Maduro Vladimir Putin met with President of Venezuela Nicolas Maduro on the sidelines of the Third Summit of the Gas Exporting Countries Forum. November 23, 2015 19:10Tehran

Como Nicolás Maduro conseguiu continuar no cargo mesmo após tantos protestos? A resposta é simples: Vladimir Putin. Conforme destacou o NY Times, só nos últimos três anos, a Rússia socorreu Caracas com aportes que somaram US$ 10 bilhões, ou mais de R$ 30 bilhões.

O presidente russo mira o petróleo venezuelano, que responde atualmente como a segunda maior fonte da Rosneft, a estatal petroleira da nação europeia. Mas entende como vantagem a influência política na região, inclusive pela proximidade com os Estados Unidos – um avião que decola em Caracas aterrissa em Miami apenas 3h30 depois.

Segundo a publicação americana, ao substituir a China como principal financiadora do bolivarianismo sul-americano, a Rússia converteu a Venezuela em sua maior aposta. Que é de risco, e Moscou sabe disso.

A fartura de dólares talvez explique por que a esquerda brasileira segue em peso aplaudindo o ditador venezuelano.

Que as autoridades brasileiras não marquem bobeira.

Lula pediu palmas para a Venezuela 47 dias após a OEA qualificá-la de ditadura

Em 30 de março de 2017, o El País não teve dúvida: Nicolás Maduro havia aplicado um golpe de estado e consolidado uma ditadura na Venezuela. Em 5 de agosto, o Mercosul suspendeu os direitos políticos do país, e a Folha de S.Paulo deu o braço a torcer passando a chamá-lo de ditadura. No dia 31, a OEA concordou plenamente com a leitura. Em 9 de setembro, o próprio Maduro disse estar disposto a se tornar um ditador para superar a crise que enfrentava.

Nada disso importou para o PT. Que, em 16 de outubro, publicou nota chamando a Venezuela de “exemplo de democracia e participação cidadã“:

O Partido dos Trabalhadores saúda o presidente Nicolás Maduro e seu partido, o PSUV, pela contundente vitória eleitoral nas eleições regionais deste domingo, 15 de outubro de 2017, a vigésima segunda eleição em dezoito anos de governos liderados pelo PSUV.

Este dia será lembrado como o dia de uma vitoriosa jornada de democracia, onde mais de 60% do eleitorado atendeu à convocação democrática e compareceu, de maneira cívica e pacífica, manifestando seu apoio à paz , à democracia e à soberania na Venezuela.”

No Twitter, Lula chegou a pedir uma “salva de palmas” para a Venezuela.

Meses antes, em maio, no VI Congresso do PT, Lula garantiu: “Não fiquei mais radical, fiquei mais ‘maduro’”. Nas redes sociais, por causa da ênfase no termo “maduro”, muitos entenderam a frase enigmática como o que os americanos chamam de dog-whistle politics, uma mensagem codificada que significa uma coisa sem peso para a opinião pública, mas um recado à militância mais aguerrida.

Venezuela: pedidos de asilo ao Brasil quadruplicaram em 2017

A deterioração da situação humanitária na Venezuela e o crescente autoritarismo de seu governo estão forçando cada vez mais venezuelanos a fugirem para o vizinho. De janeiro a junho, 7.600 venezuelanos solicitaram asilo no Brasil, enquanto apenas 4 em 2010, de acordo com dados fornecidos pelo Ministério da Justiça ao Human Rights Watch. A CONARE, a agência federal de refugiados do Brasil, não tem conseguido lidar com tal avalanche: mais de 98% dos pedidos desde 2010 ainda estão pendentes.

Como se percebe no gráfico abaixo, enquanto 3.368 pedidos foram feitos em todo 2016, o número mais que dobrou apenas no primeiro semestre de 2017. Na proporção, é como se tivesse enfrentando um aumento superior a 350%.

Dados da imigração de venezuelanos para o Brasil.
Dados da imigração de venezuelanos para o Brasil.

Em março, como uma melhor maneira de responder a imigração da Venezuela, autoridades brasileiras aprovaram uma resolução permitindo que venezuelanos solicitassem uma autorização de residência por 2 anos. Em agosto, um juiz federal isentou venezuelanos pobres de pagarem a taxa no valor de R$ 311,18 para pedir a residência temporária, o que havia impedido muitos de solicitarem. A Polícia Federal em Roraima – o Estado brasileiro que faz fronteira com a Venezuela – contou ao Human Rights Watch que foram recebidos, somente em agosto, 413 pedidos de venezuelanos para residência temporária.

E pensar que ainda há partidos brasileiros – sim, no plural – defendendo a ditadura bolivariana.

Via BNDES, os governos Lula e Dilma financiaram mais de R$ 10 bilhões em obras na ditadura venezuelana

Via BNDES, os governos Lula e Dilma Rousseff financiaram US$ 3,3 bilhões, ou algo em torno de R$ 10,3 bilhões, em obras de infraestrutura e contratos de serviço na Venezuela. Com verba do povo brasileiro, a ditadura venezuelana ergueu, por exemplo, o metrô de Caracas, o metrô de Los Teques, uma usina siderúrgica e até obras de saneamento.

Em 2017, a dívida da Venezuela com fornecedores brasileiros já chegou a US$ 5 bilhões, ou por volta de R$ 15 bilhões. No geral, são empreiteiras investigadas na Lava Jato e em tantos outros países da América Latina, como a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa.

Em setembro, uma parcela de R$ 820 milhões foi simplesmente ignorada por Nicolás Maduro. E o calote fez soar o alerta no governo Temer. Porque as negociações estão seguradas pelo Fundo Garantidor de Exportações. E o fiador do FGE é ninguém menos que o Tesouro Nacional. Ou seja… Há o sério risco de essas faturas caírem mais uma vez nas costas do povo brasileiro.

O governo Temer enviou uma comitiva para negociar com Maduro. Mas a missão é complicada. Os países não se bicam desde que o Brasil tramou com a Argentina a justa expulsão da Venezuela do Mercosul.

A esperança talvez seja Vladimir Putin. O presidente russo não tem qualquer apreço pela democracia, mas vem cobrando de Maduro um mínimo de austeridade. Em contrapartida, pretende injetar US$ 20 bilhões no petróleo venezuelano.

A Venezuela foi o primeiro país a erradicar a malária na região, mas o socialismo fez a epidemia voltar com tudo

Até 1936, a Venezuela tinha os maiores registros de casos de malária na América Latina. Mas um eficiente programa de controle permitiu ao país declarar que havia erradicado a doença no final dos anos 1960. Infelizmente os números voltaram a incomodar já nos anos 1980. Mas começaram a sair do controle à medida em que Hugo Chávez implementava o que ele próprio chamava de “Socialismo do Século XXI”.

De menos de 25 mil casos em 2001, a situação superou os 50 mil quando Nicolás Maduro chegou ao poder. E saiu do controle desde então. Para 2017, a expectativa é de que se aproxime do milhão de casos – ou 930 mil, para ser mais exato.

A região mais afetada é justo a que faz fronteira com o Brasil, provando que a tragédia humanitária põe em risco a saúde até mesmo das nações vizinhas.