Defesa de Lula alegou não ter os R$ 21,4 milhões, mas a empresa dele recebeu R$ 27 milhões em 4 anos

O Implicante já havia observado a incoerência dos números. Lula havia declarado um patrimônio de R$ 11,7 milhões. Mas o MPF pediu bloqueio de R$ 21,4 milhões, gerando o protesto da defesa do investigado, que alega não possuir tamanha fortuna.

Foi quando o Estadão relembrou um dado já conhecido. Em 4 anos, no que tem sido investigado como uma forma de lavar dinheiro proveniente de tráfico de influência, a empresa de palestras do ex-presidente recebeu R$ 27 milhões pelos serviços prestados. Com o petista tendo cota societária de 98%, o que permitiria o bloqueio e ainda sobraria um “troco” de R$ 5 milhões.

No mesmo período, a conta da empresa registrou movimentação de R$ 52 milhões. Ao todo, teriam sido 72 palestras ao custo de 200 mil dólares. Desta graça, foram retirados exatos R$ 25.269.235,53.

A operação Zelotes entendeu que a movimentação não condizia com a atividade econômica ou capacidade financeira do cliente. E o fato de grande parte dos pagamentos vir de empreiteiras investigadas contou contra o sócio majoritário.

 

Na delação, Antonio Palocci garantiu ter entregue propina em dinheiro vivo para Lula

A delação de Antonio Palocci tem feito um estrago tão grande em Lula que rendeu, dentro do próprio PT, um movimento para que o partido busque um novo candidato para 2018. Em um dos trechos mais bombásticos, o ex-presidente é citado como o destinatário de propina em dinheiro vivo.

De acordo com os relatos obtidos por Veja, os pagamentos eram feitos em pacotes de R$ 30 mil a 50 mil, sempre com o objetivo de quitar despesas pessoais do petista. O delator narrou aos investigadores ao menos cinco episódios em que Palocci em pessoa fazia a entrega.

Quando valores superavam a referida quantia, Branislav Kontic, um “faz-tudo” do ex-ministro, se encarregava de entregar a grana no Instituto Lula.

A origem da propina era a reserva feita pela Odebrecht em benefício do PT, uma espécie de “conta-corrente” também delatada pela empreiteira.

Segundo Palocci, o Instituto Lula foi criado para receber doação de quem levava vantagem no governo Lula

No depoimento prestado à Lava Jato em 6 de setembro de 2017, Antonio Palocci contou que participou da elaboração do Instituto Lula, que o projeto feito por ele estava, inclusive, nos computadores apreendidos pela operação. Reconhecendo que a intenção não tinha nada de nobre, o ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff entregou que a intenção era usar a instituição para receber doações das empresas que recebiam vantagens do governo Lula.

“Insisto aqui de novo, doutor, não tou querendo dar de santo. Eu queria ir atrás dos parceiros que o governo tinha criado vantagem para que eles dessem doação para o Instituto, eu entendi que era isso. A criação do Instituto era pra receber as doações prometidas.”

A Lava Jato ainda há de se pronunciar melhor sobre a passagem. Mas, da forma como Palocci apresentou, restou a sensação de que o Instituto Lula fora criado para lavar dinheiro de propina negociada com a gestão Lula.

Em ao menos 3 oportunidades, o Instituto Lula fez uso da expressão “denegrir”

Naa jogada mais rasteira do depoimento dado por Lula em 13 de setembro de 2017 à Lava Jato, o ex-presidente repreendeu Sérgio Moro pelo uso “politicamente incorreto” da expressão “denegrir”. É um argumento explorado por militantes contra adversários, mas não é sério. Tanto que é muito bem rebatido por este artigo do Gramatigalhas. De qualquer forma, faltou ao petista fazer antes o dever de casa.

Uma breve busca no Google retorna ao menos três exemplos do uso do termo pelo próprio Instituto Lula. O primeiro, em 21 de maio de 2015:

“A interpelação criminal está prevista no art. 144, do Código Penal e é medida preparatória para eventual ação penal. No corpo da interpelação criminal foram apresentados pedidos de esclarecimentos ao jornalista que permitirão analisar a sua real intenção ao publicar a reportagem em questão e, ainda, aferir se houve intenção em denegrir a imagem e a honra do ex-presidente Lula.”

O segundo, em 4 de novembro do mesmo ano:

“O texto destaca ainda que a exibição da imagem não se deu apenas nas bancas de revistas, mas também em pontos de publicidade espalhados pelo país, reafirmando a intenção da revista de denegrir a honra e a imagem de Lula.”

O terceiro, em abril de 2016:

“Os advogados de Lula repudiam mais um vazamento seletivo de informações de processos que tramitam sob sigilo judicial, com o único intuito de interferir no cenário político do País. Tomarão, como sempre têm feito, as providências jurídicas cabíveis em relação à qualquer manipulação desse depoimento que seja realizada com a finalidade de denegrir a honra e a imagem do ex-Presidente Lula.”

Caso os links sejam alterados com o tempo, seguem abaixo os screenshots capturados em 14 de setembro de 2017.

Palocci disse que o Instituto Lula recebera R$ 4 milhões da Odebrecht

Entre 2012 e 2013, Antonio Palocci voltou a atender necessidades de Lula a respeito de “recursos”. No depoimento a Sérgio Moro, o ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff confirmou ser verdadeira a acusação feita por Marcelo Odebrecht: o depoente havia pedido ao empreiteiro R$ 4 milhões para o Instituto Lula. Os detalhes já são de conhecimento da Lava Jato:

“Acho que foi meio para o final de 2013, começo de 2014. Ele [Paulo Okamotto, presidente do instituto] tinha um buraco nas contas, me pediu para arrumar recursos. Eu fui ao Marcelo Odebrecht. Eu ia viajar para o exterior, ele disse que precisava com muita urgência. A ideia dele era que eu procurasse várias empresas. Eu disse: ‘Não posso, vou procurar só o Marcelo’. Pedi R$ 4 milhões

Palocci também confirmou que era negociado de forma ilícita a compra de um terreno para o Instituto Lula. Mas que ele próprio convencera o ex-presidente a buscar um caminho legal para o acordo com a Odebrecht, ou ficariam muito expostos a problemas com a Justiça.

Não adiantou. O depoimento prestado tinha justamente a intenção de esclarecer tal negociação.