Dois anos após dizer que não confia em delator, Dilma prometeu usar uma delação para anular impeachment

Em delação premiada assinada com o STF, Lúcio Funaro afirmou que, dias antes de o impeachment de Dilma Rousseff ser votado, Eduardo Cunha entrou em contato para saber se o doleiro tinha algum recurso para “comprar votos” a favor do processo. Em entrevista à revista Época, Cunha já comentou o episódio:

Janot queria que eu colocasse na proposta de delação que houve pagamentos para deputados votarem a favor do impeachment. Isso nunca aconteceu. Um absurdo. Se o próprio Joesley confessou o contrário na delação dele, dizendo que se comprometeu a pagar deputados para votar contra o impeachment, de onde sai esse tipo de coisa? Qual o sentido? Mas aí essa história maluca, olha que surpresa, aparece na delação do Lúcio (Funaro, doleiro próximo a Cunha). É uma operação política, não jurídica.”

Nenhum dos três – Cunha, Funaro e Rodrigo Janot – fez por merecer a confiança da opinião pública. Mas Dilma Rousseff achou por bem confiar nos dois últimos. E promete usar a delação do doleiro para anular o processo de impeachment que a derrubou.

O cruzamento de notícias levar a crer que a presidente cassada assim age por pura conveniência política. Afinal, dois anos antes, a ainda presidente da República surgia em manchete deixando bem claro: “Não respeito delator“. No caso, por ter sido alvo de vários, que entregavam os podres de seu governo já moribundo.

Mas as chances dessa investida contra o processo de impeachment tendem a zero. Quanto a isso, o brasileiro pode ficar tranquilo.

Em delação, Funaro disse que Temer, Cunha e Henrique Alves levaram R$ 250 milhões em propina

Durante o governo Dilma, as vice-presidências de Pessoa Jurídica e Fundos de Governo e Loterias da Caixa Ecônomica Federal foram entregues ao PMDB, mais especificamente a Geddel Vieira Lima e Fábio Cleto. Em delação premiada, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro afirmou ser de lá que a organização criminosa composta por Michel Temer, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves tirava grande parte da propina pela qual é investigada. Segundo o delator, os créditos do banco seriam a origem de algo em torno de R$ 250 milhões em propina.

Só do setor tocado por Geddel, o esquema teria negociado entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões. Do encabeçado por Cleto, ainda mais. Parcelas deste montante teriam permitido a Eduardo Cunha financiar outros parlamentares, dando luz a um relação de domínio para com o mandato do financiado. Isso talvez explique a facilidade com que o peemedebista tornou-se presidente da Câmara Federal em 2015, feito já atingido por Henrique Alves em 2013.

Ainda de acordo com o delator, todo o esquema contaria com a aprovação do então vice-presidente da República.

É mais uma acusação grave que, se já houvesse uma alternativa viável ao poder, derrubaria Michel Temer. Mas, ao que tudo indica, o eleitor brasileiro será provocado a resolver apenas nas urnas de 2018.

Lúcio Funaro confirmou que de fato vendia “silêncio” a Joesley Batista

No grampo que Joesley Batista divulgou contra Michel Temer, restou evidente que o dono da JBS comunicava ao presidente da República que estava comprando o silêncio de Lúcio Funaro e Eduardo Cunha. Em vez de censurar a atitude, o peemedebista mandou um sonoro “tem que manter isso, viu?“.

Em delação premiada recentemente acordada com a investigação, Funaro entregou que de fato vinha sendo mensalmente pago por Joesley, conforme trecho do termo de depoimento publicado em O Globo:

“Quanto aos pagamentos recebidos da JBS após a sua prisão, esclarece que avisou seu irmão e sua esposa que se algo lhe acontecesse deveriam procurar Joesley.”

Mais do que nunca, há elementos para se encurtar o mandato de Temer, a exemplo do que já ocorrera com Dilma Rousseff. Mas o apreço pela recuperação econômica, e o receio de uma volta ao poder do grupo que comandou o país até 2016, afasta a população das ruas.

Há, claro, a esperança de o problema ser revolvido nas urnas de 2018. Mas esta esperança existiu também em 2005. E findou com a reeleição de Lula em 2006. É um caminho arriscado. Que sempre findou em vitória do governo.

Funaro disse que Cunha era a “interface” de Temer no esquema do PMDB

Uma das grandes dificuldades para se atingir o topo do comando de uma quadrilha composta por políticos reside nos cuidados tomados por suas lideranças. As mais preparadas evitam o contato direto com o objeto do crime, mantendo controle do esquema por intermédio de emissários. Para ter sucesso, o investigador precisa do testemunho de membros da organização. É o caso de Lúcio Funaro, que, além de Eduardo Cunha, entregou o que sabe sobre Michel Temer.

Conforme relato adiantado pela Veja, o delator entregou que Eduardo Cunha era a “interface” do presidente da República na organização criminosa que atuava na Câmara Federal em benefício do PMDB:

“Temer participava do esquema de arrecadações de valores ilícitos dentro do PMDB. Cunha narrava as tratativas e as divisões (de propina) com Temer.”

Temer teria sido o destino de ao menos R$ 13,5 milhões em propina. O que, por si só, legitimaria um impeachment. Mas este é um processo político. E aqueles que poderiam movê-lo contra o presidente estão em situação ainda mais complicada — e são, inclusive, cúmplices em alguns destes ilícitos, ou mesmo compartilham o desejo pelo fim da Lava Jato.

De qualquer forma, falta um ano para a campanha eleitoral. Se o Congresso não resolver, a população pode dar conta do serviço.