Hiperinflação venezuelana já é (muito) pior do que a vivida no Brasil em seu pior momento

Por mais que boa parte dos americanos não tenha a mínima ideia de quem seja Nicolás Maduro, os mais versados em política seguem de olho no que acontece mais ao sul dos Estados Unidos. Steve Hanke, economista que assina artigos na Forbes, usou o próprio perfil no Twitter para destacar o que ocorria no 21 de novembro de 2017.

O gráfico mostrava o número assustador: 4.114%. Era a inflação acumulada dos doze meses anteriores no experimento bolivariano lançado por Hugo Chávez. O desenho ainda alerta que a situação tem piorado a passos cada vez mais largos.

Para efeito de comparação, o Brasil nunca viu inflação tão sufocante quanto a medida em 1993. Naquela temporada, os indicadores acumularam 2.477,15% de alta. No ano seguinte, contudo, a política econômica adotada por FHC não só seguraria o galope inflacionário, como garantiria ao tucano dois mandatos como presidente da República.

Em outras palavras, é possível afirmar que a hiperinflação venezuelana já é bem pior do que a enfrentada pelos brasileiros nos governos Sarney, Collor e Itamar.

Lula e a esquerda brasileira apoiam um ditador acusado de matar 8.290 venezuelanos

Mesmo com tudo o que se sabe de Nicolás Maduro, a esquerda brasileira em pesa seguiu oferecendo apoio ao ditador venezuelano. Em especial, chamou atenção as manifestações pública de partidos como PT, PCdoB, PDT e PSOL, além das palmas pedidas por Lula nas redes sociais – e uma estranha fala, quando o ex-presidente insistiu que estava ficando mais “maduro”.

Se o que o noticiário apontava já tinha força em suficiência para tornar repudiáveis o posicionamento da esquerda brasileira, o que dizer após Luisa Ortega Díaz acusar em Haia que Maduro matara 8.290 venezuelanos no intervalo de dois anos e meio?

Portanto, é preciso deixar claro para a opinião pública quem é a pessoa que, até a redação deste texto, lidera pesquisas na corrida presidencial. E esta pessoa é alguém que aplaude um ditador sanguinário – e se manifesta de forma a deixar a sensação de que está ficando como ele.

Nicolás Maduro é a prova de que a luta contra o “discurso de ódio” não passa de um eufemismo para censura

Por tudo o que aconteceu na segunda metade do século passado, com a guerra fria disseminando ditaduras em todo o planeta, a humanidade pegou uma justa aversão à censura. O que está longe de significar que forças políticas, quando com o devido poder, não veem vantagem nela. Contudo, esse sentimento não pode ser explícito, ou não chegam ao posto em que conseguem calar adversários.

Não é por outro motivo que toda sorte de eufemismos é sacada para disfarçá-la. Por muito tempo, falou-se em “controle social da mídia”. Mas, com a internet descentrando a origem das “narrativas”, o recurso deu vez a uma eterna luta contra o que chamam de “discurso de ódio”. É, por exemplo, como o Vale do Silício se justifica ao derrubar tantos canais que rendem aos bilionários da TI algum nível de desconforto.

Pois bem… Nicolás Maduro, que já é reconhecido no mundo todo como um ditador, decidiu pesar a mão contra as críticas recebidas. E, sob a desculpa de que combate justamente o tal discurso de ódio, por intermédio de um “decreto-lei”, promulgou a Lei contra o Ódio, para Convivência e Tolerância Pacíficas.

O socialista jura agir assim para combater o racismo, mensagens hostis e a intolerância até mesmo contra orientações políticas. Como pena, aqueles que infringirem o texto terão os direitos políticos cassados, perderão concessões de rádio e TVs e podem pegar de 10 a 20 anos de cadeia.

Para a Human Rights Watch, por exemplo, tudo isso não passa de uma tentativa de acabar com a “liberdade de expressão nas mídias sociais”. Já Cecilia Sosa, ex-presidente Corte Suprema de Justiça venezuealana, a lei “pretende legalizar a repressão com aparência jurídica. É um atentado à liberdade de opinião, uma repressão sofisticada”.

Enquanto isso, o líder nas pesquisas presidenciais brasileiras já deixou claro que ficou “mais maduro“.

Lula pediu palmas para a Venezuela 47 dias após a OEA qualificá-la de ditadura

Em 30 de março de 2017, o El País não teve dúvida: Nicolás Maduro havia aplicado um golpe de estado e consolidado uma ditadura na Venezuela. Em 5 de agosto, o Mercosul suspendeu os direitos políticos do país, e a Folha de S.Paulo deu o braço a torcer passando a chamá-lo de ditadura. No dia 31, a OEA concordou plenamente com a leitura. Em 9 de setembro, o próprio Maduro disse estar disposto a se tornar um ditador para superar a crise que enfrentava.

Nada disso importou para o PT. Que, em 16 de outubro, publicou nota chamando a Venezuela de “exemplo de democracia e participação cidadã“:

O Partido dos Trabalhadores saúda o presidente Nicolás Maduro e seu partido, o PSUV, pela contundente vitória eleitoral nas eleições regionais deste domingo, 15 de outubro de 2017, a vigésima segunda eleição em dezoito anos de governos liderados pelo PSUV.

Este dia será lembrado como o dia de uma vitoriosa jornada de democracia, onde mais de 60% do eleitorado atendeu à convocação democrática e compareceu, de maneira cívica e pacífica, manifestando seu apoio à paz , à democracia e à soberania na Venezuela.”

No Twitter, Lula chegou a pedir uma “salva de palmas” para a Venezuela.

Meses antes, em maio, no VI Congresso do PT, Lula garantiu: “Não fiquei mais radical, fiquei mais ‘maduro’”. Nas redes sociais, por causa da ênfase no termo “maduro”, muitos entenderam a frase enigmática como o que os americanos chamam de dog-whistle politics, uma mensagem codificada que significa uma coisa sem peso para a opinião pública, mas um recado à militância mais aguerrida.

Driblando a versão oficial, descobre-se que a inflação na Venezuela já superou os 2.400%

Ditaduras não são transparentes, e não seria diferente com a Venezuela. Entre dezembro de 2014 e janeiro de 2016, por exemplo, o Banco Central venezuelano simplesmente não publicou qualquer dado a respeito da inflação no país. Contudo, há como driblar a censura de Nicolás Maduro e calcular isso. E o Johns Hopkins – Cato Institute Troubled Currencies Project mergulhou nas planilhas com esta intenção.

Para tanto, confrontou a cotação da moeda local perante o dólar americano no mercado livre (pejorativamente tratado como “mercado negro” pelo discurso oficial). “Mudanças na taxa de câmbio do mercado negro podem ser transformadas de forma confiável em estimativas precisas das taxas de inflação em todo o país“, garantiu Steve H. Hanke, diretor do Instituto.

Pelos cálculos de Hanke, a inflação anual venezuelana atingiu absurdos 2.432,94% em 20 de setembro de 2017. O que permitiu a ele afirmar: “A Venezuela está testemunhando a pior inflação do mundo“.

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Enquanto isso, o Brasil, que se livrara de Dilma Rousseff um ano antes via impeachment, caminhava para ter a menor inflação em 19 anos.

Via BNDES, os governos Lula e Dilma financiaram mais de R$ 10 bilhões em obras na ditadura venezuelana

Via BNDES, os governos Lula e Dilma Rousseff financiaram US$ 3,3 bilhões, ou algo em torno de R$ 10,3 bilhões, em obras de infraestrutura e contratos de serviço na Venezuela. Com verba do povo brasileiro, a ditadura venezuelana ergueu, por exemplo, o metrô de Caracas, o metrô de Los Teques, uma usina siderúrgica e até obras de saneamento.

Em 2017, a dívida da Venezuela com fornecedores brasileiros já chegou a US$ 5 bilhões, ou por volta de R$ 15 bilhões. No geral, são empreiteiras investigadas na Lava Jato e em tantos outros países da América Latina, como a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa.

Em setembro, uma parcela de R$ 820 milhões foi simplesmente ignorada por Nicolás Maduro. E o calote fez soar o alerta no governo Temer. Porque as negociações estão seguradas pelo Fundo Garantidor de Exportações. E o fiador do FGE é ninguém menos que o Tesouro Nacional. Ou seja… Há o sério risco de essas faturas caírem mais uma vez nas costas do povo brasileiro.

O governo Temer enviou uma comitiva para negociar com Maduro. Mas a missão é complicada. Os países não se bicam desde que o Brasil tramou com a Argentina a justa expulsão da Venezuela do Mercosul.

A esperança talvez seja Vladimir Putin. O presidente russo não tem qualquer apreço pela democracia, mas vem cobrando de Maduro um mínimo de austeridade. Em contrapartida, pretende injetar US$ 20 bilhões no petróleo venezuelano.

A Venezuela foi o primeiro país a erradicar a malária na região, mas o socialismo fez a epidemia voltar com tudo

Até 1936, a Venezuela tinha os maiores registros de casos de malária na América Latina. Mas um eficiente programa de controle permitiu ao país declarar que havia erradicado a doença no final dos anos 1960. Infelizmente os números voltaram a incomodar já nos anos 1980. Mas começaram a sair do controle à medida em que Hugo Chávez implementava o que ele próprio chamava de “Socialismo do Século XXI”.

De menos de 25 mil casos em 2001, a situação superou os 50 mil quando Nicolás Maduro chegou ao poder. E saiu do controle desde então. Para 2017, a expectativa é de que se aproxime do milhão de casos – ou 930 mil, para ser mais exato.

A região mais afetada é justo a que faz fronteira com o Brasil, provando que a tragédia humanitária põe em risco a saúde até mesmo das nações vizinhas.