O petismo pregou desobediência civil, mas o passaporte de Lula foi entregue na manhã seguinte

Com a condenação de Lula em segunda instância, “desobediência civil” virou palavra da moda na boca do petismo. E isso não vem da parte da militância mais bovina, mas dos próprios parlamentares. Por vezes, e ainda que com outros termos não menos truculentos, do próprio condenado.

Mas, na primeira oportunidade que teve para desobedecer a ordem judicial, a defesa do ex-presidente prometeu e entregou o passaporte na manhã seguinte.

O discurso do PT mete medo pois é algo já posto muito em prática na história e na vizinhança mais ao norte do país. E de fato leva ao colapso, como se percebe no exemplo venezuelano.

Todavia, a forma pacífica como o passaporte foi entregue pode ser um sinal de que tudo não passa de frases feitas para incendiar a militância. Que nenhum dos líderes está disposto a se sacrificar por nada. E que cão barulhento não morde.

Segundo o Datafolha, a maior parte dos petistas é de direita

O Datafolha de outubro aproveitou para atualizar um levantamento que o instituto faz, com intervalos irregulares, desde 1989. E perguntou o posicionamento político do eleitor. Como se percebe no quadro reproduzido abaixo, a esquerda vive o pior momento desde 2010, quando 20% dos brasileiros se diziam esquerdistas ou centro-esquerdistas. Ao todo, enfrentou uma queda de 6% em apenas três meses.

A direita já viveu dias melhores, mas vem bem. Cresceu de 32% para 36% no mesmo período. Contudo, ainda precisa remar bastante para superar os 41% medidos em 2003.

Contudo, poucos dados soam tão inusitados quanto o cruzamento desta informação com a intenção de voto ou mesmo preferência partidária. Se 31% dos eleitores de Lula se dizem de esquerda, 38% apresentam-se como de direita. Dentre os que têm no PT o partido de preferência, enquanto 32% são de esquerda, outros 41% são de direita.

Territorialmente, não há regiões mais de direita no Brasil do que o Norte (42%) e o Nordeste (39%).

Mas isso não é novidade para o petismo. As campanhas mais vitoriosas foram aquelas que negaram uma agenda progressista e se entregaram a pautas conservadoras. Falta só o eleitor parar de cair nessa armadilha.

Num período de 10 meses, o Datafolha viu o número de petistas mais que dobrar

Há um fenômeno acontecendo nos levantamentos do Datafolha a respeito da corrida presidencial. Cada vez que o instituto vai às ruas, encontra mais e mais eleitores que se dizem petistas. Em dezembro de 2016, apenas 9% assumiam ter o PT como partido de preferência. Em maio de 2017, o número saltou para 15%. Em junho, para 18%. E em outubro, para 19%.

Fenômeno semelhante não se deu com os grandes partidos do governo Temer. Durante este intervalo de 10 meses, PMDB e PSDB apenas oscilaram entre 4% e 5%. Considerado linha auxiliar do petismo, o PSOL também seguiu estacionado em 1%.

O gráfico abaixo desenha bem o que vem acontecendo:

Fonte: Datafolha (clique para ampliar)

É possível especular bastante coisa a respeito da barra vermelha cada vez maior. Inclusive, leituras que vão de encontro à credibilidade do instituto. O mais provável, contudo, é que a baixa popularidade do governo Temer venha permitindo ao petista se assumir como é, como foi, ou nunca deixou de ser.

Que isto sirva de alerta a quem acha que o jogo em 2018 já está decidido. Claro, muita água ainda há de rolar. Mas isso necessitará muito trabalho, e do bem feito.

Repudiar o acordo com a JBS é diferente de apoiar o governo Temer

Com a volta do petismo à oposição, o governismo perdeu força no Brasil, mas não deixou de existir. Contrariando a lógica, após a delação da JBS vir a público no primeiro semestre de 2017, tais vozes ganharam ainda mais corpo — reforçando as suspeitas de que estariam sendo pagas para defender a gestão Temer.

Desde então, comportam-se como gripes oportunistas. Sempre que os inimigos do governo Temer sofrem um derrota — e, nesse sentido, não há inimigo maior do que a Justiça em seu sentido mais amplo —, tentam converter o estrago em algo que bonifique não só o presidente da República, mas o bando protegido por ele no poder.

Todavia, é claro que uma coisa não implica noutra. É perfeitamente possível, por exemplo, repudiar a anistia concedida à JBS sem, para isso, apoiar o governo Temer.

A opinião pública parece saber disso. Do contrário, a popularidade desta gestão cresceria a cada nova trapalhada de Janot. Mas não foi o que se observou.